30 novembro 2011

Tirinhas

Eu acordava. Como qualquer outro dia. Só que este era diferente dos demais. Quando somos crianças, os domingos podem sim ser mais divertidos que os sábados. Na minha infância, aquele que tecnicamente é o primeiro dia da semana, era sinônimo de praia. Década de noventa. Rio de Janeiro. A turma toda estava lá e se encontrava no posto 6 da Barra da Tijuca. O sol carioca nunca vacilava, nunca deixava a gente na mão.

Como de praxe, meu pai não ia às areias brancas da zona Oeste sem seu O Globo. Aliás, ele faz isso até hoje. O que acredito que ele não saiba é o quanto me incentivou fazendo isso. O menino sempre quer fazer o que o pai faz. Eu pedia gole de cerveja, ele me dava um pouco do “colarinho”. Ele assistia Fórmula 1 e futebol no sofá da sala comendo sorvete, e lá estava eu, sentado no chão, com o meu potinho.

Voltando ao impresso e a praia: ele lia e eu, largava futebol, amigos e brincadeiras; pois também queria ler. Queria imitar. Eu sentava lá, do lado dele. Me sentia importante. Ele lia economia e política, e eu ficava com Calvin e Haroldo (que na maioria das vezes, por conta da pouca idade, era incompreensível pra mim).

O conteúdo era indiferente, na verdade. Na época, era a postura que me interessava. O respeito que tenho pelo meu pai acabou sendo repassado ao veículo que ele lia. Creio eu, um processo natural. O fruto disso tudo é a profissão que escolhi. As coisas não acontecem por acaso. Não mesmo...

12 agosto 2011

A divinização do dedão opositor 2

Tudo bem, preciso me retificar. Uma vez defendi a tese de que os avanços alcançados pela humanidade se deviam unica e exclusivamente à preguiça do ser humano. Não abandono este pensamento por completo, pelo contrário, ainda acredito que parte dele esteja de acordo. Apesar de tudo, cada dia que passa, chego mais próximo de uma conclusão que findaria em englobar também a curiosidade.

Homens e mulheres não se aguentam, diariamente. Eles e elas buscam religiosamente desvendar os seus "mistérios pessoais", mesmo que fúteis. A curiosidade corrói como um ácido sulfúrico na pele nua. Ela arde e pede o rasgar das unhas (que restam) como um prurido enlouquecedor. É, de fato, muito mais "malvada" que uma Eve Harrington engajada na causa. Com ela, esvai-se o sono, esvai-se a paz e esvai-se o ser são.

Também com ela, e através da busca do modo de saciá-la, chega o avanço. Me diga, caro leitor, o que seria da humanidade sem os pensadores que vagaram sobre o "além do horizonte" (não estou falando do Roberto Carlos)? Sem este tipo de gente, seríamos apenas um bando de macacos loucos e preguiçosos e, sem dúvidas, estaríamos fadados a caçar piolhos na cabeça uns dos outros até que a morte nos separasse.

30 maio 2011

Sobre verdades absolutas...

Não acredito nos acasos da vida. Penso que em tudo existe um "porque" escondido ou camuflado, e que eles te seguem sorrateiros, por detrás de um poste ou arbusto. Vão, ao longo do caminho, disfarçados de Deus. Em horas são realmente imperceptíveis, mas em outros momentos são canalhas, escancarados até demais, e de propósito! Debocham e gargalham com escárnio na cara dos que fingem não vê-los.

Em uma destas, em que a "razão" se une à "emoção" em prol de um "bem" comum, os argumentos passam a ser tão absolutos que exalam vida própria. Nada que lhes garanta autonomia suficiente para saírem por aí quebrando vidraças e importunando a vida alheia. Seus vizinhos podem dormir tranquilos. Já você, não! Sabe o porquê? Porque são parasitas da pior espécie! Daqueles que grudam na pele, como perfume ordinário!

Não adianta bater os pés. Eles são irremediavelmente necessários e ditam nossa existência. Em parte, são similares aos "filhos" de Vinicius: "Melhor não tê-los. Mas se não os temos, como sabê-los?". Melhor se deixar levar...

11 janeiro 2010

A divinização do dedão opositor

     Quando os jovens estudantes adentram as salas de aula de história e geografia nos dias atuais, a lição que se vê, e que se espera, é aquela que ajeita a história da humanidade fadada de glórias e conquistas que invejariam qualquer ser vivo, seja ele terrestre ou não. Mas o fato é que toda evolução desta espécie tem seu passado, presente e futuro pilados em um de seus maiores defeitos: a preguiça.
Exatamente, caro leitor, um dos sete pecados capitais! A aversão a trabalho ou esforço físico é determinante quando se trata da evolução humana. Aquela imagem de “santa perfeição e inteligência” que predomina meio a nós, pós leitura deste artigo, passará a ser tratada como ultrapassada.
     Aposto que depois de contadas e recontadas as conclusões a seguir, o homem perde sua imagem de São Francisco de alpercatas e têm sua figura ideal transformada em algo sonolento e soturno, como os olhos de Bette Davis.
     Começaremos do começo: O homo habilis, habitante deste planeta a cerca de dois milhões de anos, foi o primeiro animal do gênero homo a dar as caras. Ele recebeu este nome “habilis” pela sua habilidade na confecção de ferramentas a base de pedras e ossos, que o auxiliavam nas tarefas rotineiras.
Ora, caro amigo, ferramentas são artifícios que somente interessam ao preguiçoso! A má vontade de realizar os afazeres do dia com suas próprias mãos, fez com que o homo habilis perdesse incontáveis horas em sua caverna pliocénica criando estes utensílios. Para que depois, o tempo poupado na caça fosse empregado em tarefas relaxantes e prazerosas, como dormir e desenhar: coisa de indolente!
Pior o Homo Erectus que só transava, comia e tomava banho pelado no Bengawan Solo. Provavelmente foi a primeira classe a controlar o fogo, mas tinha como único desígnio se aquecer. Também, foi a responsável pelo nascimento de diversas outras espécies: fruto de uma raça sexualmente bem ativa (o que dá o real significado ao nome da espécie, se é que me compreendes). Trabalhar que é bom nada.
O Homo Neanderthalensis, assim como o Homo Sapiens, faz parte deste grupo apático de hominídeos. Vários avanços humanóides são facilmente identificados como filhos da preguiça. A própria habilidade de falar e se comunicar. A fêmea falou primeiro, isso é indiscutível. Estudos comprovam que ela fala mais que o macho até hoje, pois bem, pense na situação: cansada e com preguiça de grunhir e gritar com o seu macho todas as manhãs, a fêmea das cavernas resolveu externar todo o seu ódio concentrado e finalmente falou: Vai mijar fora da caverna seu porco filho da puta! E assim nasceu a comunicação: escrachada, absurda e camuflada, como ainda é.
A coluna vertebral ereta é o maior modelo que pode ser descrito. Desafio você, ai do outro lado do papel, a realizar uma atividade que comprova minha tese: se espreguice em seu acento... Notou o que você acaba de fazer? Esticar sua coluna! Simplesmente o maior ato preguiçoso da face da terra, e eu quase diria do universo, vem esticando colunas a cada dia que passa. O desenvolvimento do dedão opositor do mesmo modo: A combinação de dentes e garras para comer sempre resultava em sujeira e desperdício. Nada mais civilizado então, que um belo par de mãos (com dedão) para auxiliar nas atividades “culinárias”.
Alguns energúmenos podem dizer que as guerras, estas sim, são as responsáveis pelos avanços tecnológicos do homem pós-moderno. Impossível discordar, mas pense bem: o investimento em novos armamentos tem como objetivo reduzir o trabalho de matar os outros. Mísseis nucleares: mate milhões sem sair da poltrona! Trata-se da divinização do dedão opositor! Dificílimo contestar.
Encerro com Luis Fernando Veríssimo, que além de apoiar a tese, descreve com maior maestria a criatura humana, esta sim, deveria ser chamada de bicho-preguiça.

“Toda a história das telecomunicações, desde os tambores tribais e seus códigos primitivos até os sinais de TV e a internet, se deve ao desejo humano de enviar a mensagem em vez de ir entregá-la pessoalmente ou mandar um guri resmungão. A fome de riqueza e poder do Homem não passa da vontade de poder mandar outros fazerem o que ele tem preguiça de fazer, seja trazer os seus chinelos ou construir as suas pirâmides. A química moderna é filha da alquimia, que era a tentativa de ter o ouro sem ter que procurá-lo ou trabalhar para merecê-lo. A física e a filosofia são produtos da contemplação, que é um subproduto da indolência e uma alternativa para a sesta. A grande arte também se deve à preguiça. Não por acaso, a que é considerada a maior realização da melhor época da arte ocidental, o teto da Capela Sistina, foi feita pelo Michelangelo deitado. Proust escreveu o Em Busca do Tempo Perdido deitado. Vá lá, recostado. As duas maiores invenções contemporâneas, depois do antibiótico e do microchip, que são a escada rolante e o manobrista, devem sua existência à preguiça. E não vamos nem falar no controle remoto”.

09 novembro 2009

O Torcedor

No jogo de decisão do campeonato, Eváglio torceu pelo Atlético Mineiro, não porque fosse atleticano ou mineiro, mas porque receava o carnaval nas ruas se o Flamengo vencesse. Visitava um amigo em bairro distante, nenhum dos dois tem carro, e ele previa que a volta seria problema.

O Flamengo triunfou, e Eváglio deixou de ser atleticano para detestar todos os clubes de futebol, que perturbam a vida urbana com suas vitórias. Saindo em busca de táxi inexistente, acabou se metendo num ônibus em que não cabia mais ninguém, e havia duas bandeiras rubro-negras para cada passageiro. E não eram bandeiras pequenas nem torcedores exaustos: estes pareciam terem guardado a capacidade de grito para depois da vitória.

Eváglio sentiu-se dentro do Maracanã, até mesmo dentro da bola chutada por 44 pés. A bola era ele, embora ninguém reparasse naquela esfera humana que ansiava por tornar a ser gente a caminho de casa.
Lembrando-se de que torcera pelo vencido, teve medo, para não dizer terror. Se lessem em seu íntimo o segredo, estava perdido. Mas todos cantavam, sambavam com alegria tão pura que ele próprio começou a sentir um pouco de flamengo dentro de si. Era o canto? Eram braços e pernas falando além da boca? A emanação de entusiasmo o contagiava e transformava. Marcou com a cabeça o acompanhamento da música. Abriu os lábios, simulando cantar. Cantou. Ao dar fé de si, disputava à morena frenética a posse de uma bandeira. Queria enrolar-se no pano para exteriorizar o ser partidário que pulava em suas entranhas. A moça, em vez de ceder o troféu, abraçou-se com Eváglio e beijou-o na boca. Estava batizado, crismado e ungido: uma vez Flamengo, sempre Flamengo.

O pessoal desceu na Gávea, empurrando Eváglio para descer também e continuar a festa, mas Eváglio mora em Ipanema, e já com o pé no estribo se lembrou. Loucura continuar flamengo a noite inteira à base de chope, caipirinha, batucada e o mais. Segurou firme na porta, gritou: “Eu volto, gente! Vou só trocar de roupa” e, não se sabe como, chegou intacto ao lar, já sem compromisso clubista.
Carlos Drummond de Andrade

21 setembro 2009

Homem não chora



Lá estava mais uma vez ele olhando pela janela do seu quarto a menina amada. Mas dessa vez era diferente. Não era como nas outras milhares de vezes que ele olhava procurando ela se trocando ou deitada na cama. Não era como quando ele procurava ela na rua com as amigas. Ele queria chorar mas não chorava, segurava firme as lágrimas.Além do mais seu pai já havia dito a ele que homem não chora. Mas naquele dia chuvoso, vendo o caminhão de mudanca em frente a casa dela. Ela se despedindo de todos. E ele lá segurano as lágrimas.
Foram ótimos os anos ao lado dela, ele sempre a amou, mas nunca teve corágem de dizer. O ódio e a tristeza de imaginar um futuro sem ela do lado era grande, mas ele segurava firme. Segurava firme os sentimentos e as lágrimas. E só porque ele estava cada vez mais longe de realizar seu sonho de ficar com ela ele iria chorar? Não, isso não é motivo para isso. Homem não chora! Com raiva, ele saiu de perto da janela e deitou na cama. E deitado lá, com uma dor no peito e um ardor na garganta ele olhava a foto dela e segurava as lágrimas. Passou levemente os dedos no rosto dela na foto. Ele levantou rapidamente e correu em direção a casa dela. Queria pelo menos que ela soubesse de tudo antes de partir. Parou no meio do caminho e os dois ficaram se encarando. Ela abriu um sorriso e ele também. Ele foi andando em direção a ela, chegou ao lado dela que já estava para entrar no carro, e disse sussurando em seu ouvido:
-Eu te amo.
-Eu também. Disse ela ao mesmo tempo entrando no carro para ir embora.
Naquele momento ele se sentiu mais aliviado. E assistiu dali mesmo o carro levar o seu amor para longe. Talvez levando ela para o nunca. E foi ai que ele chorou.

Junho de 2002




08 setembro 2009

Elogio à feiura

(Sim pelo elogio de Erasmo de Roterdã e não pelo elogio de Humberto Eco)

Sinto falta de boas citações que mencionem a mim, mas às vezes, se pararmos para pensar nos mínimos detalhes, escondido sorrateiramente por detrás de mensagens subliminares, está o elogio mais completo que me define. Estes, sempre me surpreendem, pois raramente são decifrados e catequizados.

Posso provar o que digo! Ninguém ousaria duvidar, ainda mais de mim, tão presente na vida de reles humanos, que na sua maioria são complexos e indecifráveis como a beleza, ao contrário de mim, simplória e humilde. Reflita: definir se um ser/criatura é bonito (a) é complexo! Cada ser pensante pode chegar a uma conclusão distinta quando se trata da beleza de outro, mas quando se trata de feiúra a unanimidade reina! Eu sou, portanto, uma conclusão simples de se alcançar e fácil de conquistar. Além de simples, eu sou o mundo! Exatamente isso que você leu caro leitor: eu, a feiúra, sou o mundo! O grande poeta Veloso já dizia: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Se apenas o espelho é bonito, todo resto é feio, portanto eu sou todo o resto!

O bonito é simplesmente a ausência do feio, como o escuro é a ausência da luz. Eu sou a luz que guia o mundo! Ou você vai me dizer que acha o Lula bonito? O Obama? O Papa? Habito e habitei os maiores nomes da humanidade. Normalmente a beleza vem acompanhada de ignorância e preguiça intelectual porque os belos já chamam atenção naturalmente. Mas não os feios! Os feios precisam estudar, aprender e se reciclar para poderem chamar atenção de todos com suas idéias inovadoras e distintas. E serei quase redundante quando pergunto: Ou você me diz que acha Einstein bonito? Maquiavel? Ghandi? Sócrates? Duvído.

Grandes ícones, todos feios! Feios de doer! Feiúra quase mórbida! O Patinho era feio, a Betty é feia e Roberto Carlos é feio! Não é dele a canção sobre tal assunto? Como rezava o próprio “Mas as garotas vivem por ele a suspirar, Todas elas querem com o feio namorar”.
Termino este relato de indignação com um trecho de canção que prova a importância da feiúra. Paulinho Moska diz com maestria:

“O vazio é um meio de transporte para quem tem coração cheio
Cheio de vazios que transbordam seus sentidos pelo meio
Meio que circunda o infinito, tão bonito de tão feio
Feio que ensina e que termina começando outro passeio [...]”